Renato Mendonça - ZH
Foi difícil falar com Luiz Carlos Borges hoje pela manhã: o acordeonista gaúcho estava em Buenos Aires, desde ontem, acompanhando as últimas horas de Mercedes Sosa, e exibia as marcas da emoção na voz compassada e grave. As últimas tentativas de contato com a amiga, internada desde 18 de setembro em um hospital portenho, se deram, claro, através da música. Borges contou que, no sábado, lhe foi permitido pela família de La Negra por duas vezes sussurrar-lhe no ouvido Missioneira, composição de Borges e Mauro Ferreira que Mercedes incluía sempre nos repertórios de seus últimos shows. Borges observa que a morte de Mercedes não tira de cena talvez a mais destacada cantora latino-americana, e certamente a voz mais eloquente na defesa dos direitos humanos, especialmente nos anos 1970 e 1980: — Isso nos tira o ser humano Mercedes também. Borges conheceu Mercedes Sosa em 1984, em um estúdio argentino, quando Kleiton & Kledir gravavam com ela Semeadura (Fogaça e Vitor Ramil). La Negra nem sabia que Borges era músico - ele foi ao encontro da cantora para tentar trazê-la ao Rio Grande do Sul como atração no festival Musicanto -, mas o tratou com delicadeza e atenção. — Estavam todos tirando fotos com ela, e eu estava escondidinho num canto. Ela se lembrou de mim, me pegou pela mão e disse que eu também era da família. A convivência no palco começou em 1985, em um show no Teatro Leopoldina (depois Teatro da Ospa), em Porto Alegre. Desde então, foram mais de 50 oportunidades em que o gaúcho e a argentina dividiram a cena. As últimas vezes foram ainda no ano passado, quando Borges foi convidado por Mercedes para acompanhá-la em uma excursão por Alemanha e por Israel. — Ela continuava dedicada, ensaiando muito e cobrando dos músicos. Mesmo com diabetes e dores no corpo, ele tentava sempre subir ao palco, consciente do papel que representava, especialmente para a música e a cultura da América Latina — diz Borges. Segundo o cantor, acordeonista e compositor gaúcho, Mercedes pregava suas ideias em todos os lugares. Por exemplo, quando a dupla estava em Cachoeira do Sul, voltando de um show. — Ela sabia que eu tinha uma crença parecida com a dela, a de que o folclore não deve se fechar. Dizia "Temos de partir da raiz, mas fazer com que nasçam flores", o que significava abrir-se a outros gêneros, realizar generosamente o exercício da troca. Como ela fazia com Milton (Nascimento), com Charly García, com Caetano Veloso. Para Mercedes, se a raiz não dá frutos, ela apodrece.
Missioneira Composição: Mauro Ferreira / Luiz Carlos Borges
Eu pela noite negra dos teus cabelos
Tu apagando o rastro do teu olhar
Pra que rincões a vida levou teus passos
Flor das missões que vive nos sonhos meus
Como entender que um dia estando em meus braços
Com luz de sol me sorriu
E com uma voz de rio disse adeus
E é este amor que me traz assim
Peregrino em busca do teu querer
E é minha dor que jamais tem fim
Que serena os lírios no amanhecer
Linda missioneira da voz de rio
Flor que na fronteira da solidão
Me adoçou a boca e depois partiu
E amargou pra sempre meu coração
Por onde andarás, por onde andarei
Que será do amor que eu jurei por ti
Que será de ti sem o que eu te dei
Que será de mim que já te perdi
Sangra a terra vermelha dessas estradas
Arde no sal do rosto o sol do verão
E eu qual um andarilho pelas estradas
Vou maldizendo os rumos dessa paixão
Louco de amar assim teu amor selvagem
Louco de amar a imagem que eu quero bem
Sem entender que passas pela paisagem
Igual a flor de aguapé que é linda
Mas que não é de ninguém!
*Fonte: Zero Hora
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